Uma semana depois de os Estados Unidos apreenderem um petroleiro ao largo da costa da Venezuela, o presidente estadunidense Donald Trump declarou o governo venezuelano como uma “organização terrorista estrangeira” e ordenou um bloqueio “de todos os petroleiros autorizados que entram e saem” do país latino-americano “até que devolvam aos Estados Unidos todo o petróleo, terras e outros ativos que nos roubaram”.
Numa publicação no Truth Social, acusou a Venezuela de roubar ativos americanos, como petróleo e terras, e de “terrorismo, tráfico de drogas e tráfico de pessoas”. “Portanto, hoje ordeno um bloqueio total e completo de todos os petroleiros sancionados que entram ou saem da Venezuela”, acrescentou.
Entrevista
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A medida representa uma escalada significativa na campanha de pressão de Washington contra a Venezuela, na sua tentativa de se apoderar dos recursos energéticos do país. Em resposta a isso, o governo venezuelano disse que denunciará à ONU “esta grave violação do direito internacional contra a Venezuela”, após denunciar a “ameaça temerária e grave” feita anteriormente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que, segundo o texto, “assume que o petróleo, as terras e as riquezas minerais da Venezuela são de sua propriedade”.
Trump afirmou que “a Venezuela está completamente cercada pela maior armada já reunida na história da América do Sul. Ela só vai crescer e o impacto para eles será como nunca antes visto, até que devolvam aos Estados Unidos todo o petróleo, as terras e outros ativos que nos roubaram antes. O regime ilegítimo de Maduro usa o petróleo desses campos roubados para financiar o narcoterrorismo, o tráfico de pessoas, assassinatos e sequestro ”.
“Pelo roubo dos nossos bens e por muitas outras razões, incluindo terrorismo, tráfico de drogas e tráfico de pessoas, o regime venezuelano foi designado como organização terrorista estrangeira. Portanto, hoje ordeno um bloqueio total e completo de todos os petroleiros autorizados que entram e saem da Venezuela», disse Trump.
”Os imigrantes ilegais e criminosos que o regime de Maduro enviou durante a fraca e ineficaz administração de Biden estão a ser devolvidos à Venezuela a um ritmo acelerado. Não permitiremos que criminosos, terroristas ou outros países roubem, ameacem ou prejudiquem a nossa nação, nem permitiremos que um regime hostil se apodere do nosso petróleo, terras ou quaisquer outros ativos, os quais devem ser devolvidos imediatamente aos Estados Unidos”, ameaçou o chefe da Casa Branca.
Através de um comunicado, o Governo da Venezuela rejeitou a grotesca ameaça de bloqueio petrolífero por parte dos Estados Unidos (EUA), anunciada recentemente por Donald Trump “Nas suas redes sociais, ele assume que o petróleo, as terras e as riquezas minerais da Venezuela são de sua propriedade. E, consequentemente, a Venezuela deve entregar-lhe todas as suas riquezas imediatamente”, diz o texto. Nesse sentido, a Venezuela reafirma o seu direito de exercer soberania sobre os seus recursos naturais, bem como o seu direito à livre navegação no Caribe”.
“Consequentemente, procederá em estrita conformidade com a Carta das Nações Unidas, para exercer plenamente a sua liberdade, jurisdição e soberania acima dessas ameaças belicistas. Imediatamente, o nosso embaixador na ONU denunciará esta grave violação do Direito Internacional contra a Venezuela», lê-se no comunicado, que reafirma que o país ”nunca mais voltará a ser colónia de um império ou de qualquer potência estrangeira e continuará a percorrer, juntamente com o seu povo, o caminho da construção da prosperidade e da defesa irrestrita da nossa independência e soberania”.
Com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump “estamos em território desconhecido”, a tal ponto que os próprios republicanos começam a questionar, pelo menos, a sua maturidade e estabilidade emocional, afirmou o repórter estadunidense Carl Bernstein (denunciante do caso Watergate), que declarou à CNN que o que se fala sobre o presidente nos círculos políticos e na imprensa não tem precedentes na história daquele país. De acordo com Bernstein, alguns republicanos estão tão preocupados que chegam a classificar Trump como “delirante” e consideram que o atual presidente “diz coisas que eles consideram delirantes, mentiras, e ficam perplexos”.
Não está claro como a administração Trump irá impor o bloqueio contra os navios sancionados e se irá recorrer à Guarda Costeira para intercetar embarcações, como fez na semana passada quando apreendeu um petroleiro com uma carga de cerca de dois milhões de barris de petróleo venezuelano. Também não está claro a que se referiu quando disse “todo o petróleo, as terras e outros ativos que nos roubaram”.
Venezuela
Trump usa a cenoura e o pau para apoderar-se do petróleo venezuelano
Álvaro Verzi Rangel
Num comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Trump foi acusado de pretender “impor de forma absolutamente irracional um suposto bloqueio militar naval à Venezuela com o objetivo de roubar as riquezas que pertencem à nossa pátria”. “Nas suas redes sociais, ele assume que o petróleo, as terras e as riquezas minerais da Venezuela são de sua propriedade. E, consequentemente, a Venezuela deve entregar-lhe todas as suas riquezas imediatamente”, acrescentou.
“A sua verdadeira intenção, que foi denunciada pela Venezuela e pelo povo dos Estados Unidos em grandes manifestações, sempre foi apropriar-se do petróleo, das terras e dos minerais do país por meio de gigantescas campanhas de mentiras e manipulações”, destacou o ministro das Relações Exteriores, Yván Gil. Ele acrescentou que o povo venezuelano “permanecerá firme na defesa irrestrita do seu território, das suas riquezas e da sua liberdade”.
Ocultam provas de crimes
Horas antes, o secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que o Pentágono não tornará público o vídeo não editado de um ataque durante o qual foram mortos dois sobreviventes de um primeiro bombardeio contra um barco que, segundo ele, sem provas, transportava cocaína no Caribe, e advertiu que continuará a ofensiva nos mares da região, que já deixou pelo menos 95 mortos.
Ele declarou aos jornalistas que os membros dos comités dos Serviços Armados da Câmara dos Representantes e do Senado poderiam ter acesso às imagens esta semana para sua análise, mas não especificou se todos os membros do Congresso poderiam vê-las.
O chefe da diplomacia estadunidense, Marco Rubio, declarou à imprensa que a campanha é uma “missão contra as drogas” que está “focada em desmantelar a infraestrutura dessas organizações terroristas que operam no nosso hemisfério, minando a segurança dos estadunidenses, matando estadunidenses e envenenando estadunidenses”.
As sanções e a depredação
Os Estados Unidos têm usado sanções para se apropriar de ativos-chave da Venezuela e estrangular suas receitas petrolíferas, com custos que se medem em dezenas de milhares de milhões de dólares perdidos para o país, denunciou o governo bolivariano. A política de “pressão máxima”, inaugurada por Trump no seu primeiro mandato (2017-2021) e reforçada ao extremo no segundo (iniciado em 20 de janeiro passado), tem sido, na prática, uma expropriação do património público venezuelano executada a partir da Casa Branca e dos tribunais americanos.
A Citgo Petroleum, filial da Petróleos de Venezuela (Pdvsa) nos Estados Unidos, possui três grandes refinarias em Lake Charles (Louisiana), Corpus Christi (Texas) e Lemont (Illinois), com uma capacidade conjunta de aproximadamente 807 mil barris por dia, o que a coloca entre as cinco maiores refinarias independentes dos Estados Unidos. Em termos de rede comercial, estima-se que existam 4.408 postos Citgo em território estadunidense (dados de 2024 do Energy Analytics Institute), ou seja, milhares de pontos de venda de combustível que originalmente geravam fluxo de caixa para Caracas.
Desde 2019, a Citgo ficou de facto sob o controlo de um conselho ad hoc reconhecido por Washington como parte do Plano Guaidó, que pretendia não reconhecer o governo legítimo de Maduro e provocar uma mudança de regime, substituindo-o por Juan Guaidó como “presidente”, o que impediu o Estado venezuelano de exercer os seus direitos sobre a empresa. Recentemente, um tribunal de Delaware autorizou a “venda forçada” da Citgo, decisão denunciada pelo governo venezuelano como um leilão coercitivo de um ativo estratégico avaliado em milhares de milhões de dólares.
Além da Citgo, uma parte substancial dos ativos financeiros da Venezuela ficou congelada em bancos e organismos internacionais sob o guarda-chuva das sanções.
A publicação Os números do bloqueio, elaborada pelo Observatório Venezuelano Antibloqueio (OVA), pertencente à vice-presidência do país, fala de cerca de 22 mil milhões de dólares em ativos bloqueados, incluindo cerca de 5 mil milhões em Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional e cerca de 31 toneladas de ouro retidas no Banco da Inglaterra, avaliadas em aproximadamente dois mil milhões de dólares.
Álvaro Verzi Rangel é sociólogo e analista internacional, codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia e analista sénior do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica. Atigo publicado no site do CLAE.